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Quem tem medo do medo de confirmação de estereótipo para a inclusão digital 60+? Eu tenho.

Medo de confirmação de estereótipo (ou “stereotype threat”) é quando um indivíduo teme confirmar o estereótipo de que ele ou o grupo social a que pertence são vítimas. Mais do que isso, por ansiedade ou insegurança, ele inconscientemente tende a confirmar esse medo e acaba tendo um rendimento ou performance inferior naquela tarefa fundante do estereótipo. Esse mecanismo é particularmente relevante para a inclusão digital de pessoas idosas, comumente retratadas por discursos idadistas como limitadas, incapazes ou avessas à tecnologia.

Além disso, dependendo da continuidade de exposição ao idadismo, o medo de confirmação de estereótipo pode se manter após o aprendizado de certa tecnologia e resultar no uso restrito ou até no abandono da mesma.
Na etnografia de 16 meses que conduzi com pessoas idosas em São Paulo, era frequente que os participantes alegassem ter “preguiça” ou “falta de tempo” para adotar um aplicativo pelo qual demonstravam interesse. No entanto, essa atitude era uma estratégia de defesa frente ao medo de confirmarem o estereótipo de incapazes, dessa vez junto aos filhos, para quem a tecnologia era vista como “natural”. Os relatos era de que os filhos não tinham tempo, nem paciência. Por isso os cursos dados por profissionais eram tão procurados.
Mas e fora de casa? O medo de confirmação de estereótipo também levanta pontos de atenção para iniciativas que apostam na intergeracionalidade para inclusão digital dos 60+. Vou deixar esse assunto para um próximo artigo.

Para terminar este, lembro que a idade cronológica sozinha não define atitude ou habilidade frente à tecnologia. Devem ser considerados elementos como: história de vida, tipo de ocupação, tempo desde a aposentadoria, arranjo domiciliar, percepção de utilidade, avaliação de privação digital relativa e contexto socioeconômico com especial ênfase à escolaridade.

Veja as referências que respaldam esse texto e mais insights 60+ no blog do meu novo site: mariliaduque.com

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MARÍLIA DUQUE

Researcher, PhD. I combine strategic thinking with my academic background and ethnographic skills to support digital solutions addressing older people’s needs. Author “Ageing with Smartphones in Urban Brazil”

 

Referências:

Duque, M. Ageing with Smartphones in Urban Brazil: A Work in Progress. UCL Press, 2022.
Mariano, J. et al. Too Old for Computers? The Longitudinal Relationship Between Stereotype Threat and Computer Use by Older Adults. Frontiers in Psychology, v. 11, p. 568972, 2 out. 2020.
Rosell, J. et al. Predictors, Types of Internet Use, and the Psychological Well-Being of Older Adults: A Comprehensive Model. The Journals of Gerontology: Series B, v. 77, n. 7, p. 1186–1196, 5 jul. 2022.

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