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Idadismo: A Epidemia Silenciosa da Discriminação

“…A idade chega a todos!” É uma frase que habitualmente escutamos em diversos momentos do nosso quotidiano, seja num aniversário, quando parabenizamos o nosso amigo que alcançou os 40 ou 50 anos, ou quando alguma alteração de saúde é identificada na pessoa que recebe esta expressão: “… a idade chega a todos!”.

A idade chega a todos, é verdade. No entanto, chega de igual forma? Ao realizarmos uma análise sobre a nosso histórico enquanto cidadãs e cidadãos, podemos perceber sobre a correlação entre o envelhecimento associado aos diferentes géneros.

Recuando um pouco na nossa história enquanto mulheres, nos últimos 100 anos, passámos por uma série de transformações sociais, políticas e culturais significativas. Desde os anos 20 até aos dias atuais, houve progressos notáveis em relação à igualdade de género, embora também ainda se mantenham desafios no que diz respeito às desigualdades entre homens e mulheres de diferentes idades.

Sendo a nossa sociedade, até ao Estado Novo, um local onde as pessoas viviam de forma conservadora e tradicional, com papéis de género rigidamente definidos, as mulheres enfrentavam restrições significativas em relação à educação, trabalho e participação política.

A expectativa exigida às mulheres, passava por ser uma fada do lar, dedicada às tarefas domésticas e maternidade, esposa empenhada e obediente aos valores católicos e conservadores. Raras eram as mulheres que tinham acesso à educação, ou que rompiam com uma sociedade rodeada de arame farpado, como foi exemplo da ilustre e livre açoriana, Natália Correia.

Após a Revolução dos Cravos, que pôs fim ao regime de ditadura, nos anos seguintes, Portugal iniciou um processo de modernização social, onde garantiu através da sua Constituição a igualdade de direitos entre homens e mulheres. O acesso à educação foi incentivado, movimentos foram criados para um aumento de consciencialização da eliminação de comportamentos discriminatórios.

No entanto, desafios persistem. Voltemos à questão inicial. A idade chega a todos de igual forma?

É suposto discriminarmos alguém, (independentemente do género) em função da idade?

No mundo dos ismos, o IDADISMO surge no século XX da nossa sociedade para fazer um STOP a todos aqueles que, consideram que envelhecer é considerado um problema ou uma doença.

O Idadismo vem do inglês “ageism” e é o termo utilizado para identificar o tipo de discriminação em função da idade, sendo considerada pela Organização das Nações Unidas (ONU) a terceira forma mais grave de preconceito, depois do Racismo e do Sexismo. É um tipo de discriminação generalizada, silenciosa, invisível e normalizada, que pode afetar as pessoas de diferentes faixas etárias. Está presente na nossa maneira de pensar, sentir e atuar com os outros, onde podemos considerar que um jovem é “demasiado novo para ocupar um cargo de liderança numa empresa” ou “demasiado velho para integrar uma equipa de Marketing”.

De acordo com relatório lançado no dia 18 de março de 2021 pela OMS e outras agências ONU, uma em cada duas pessoas discrimina pessoas idosas, com atitudes que agravam a sua saúde física e mental e reduzem a sua qualidade de vida.

Esta forma de preconceito, tem consequências negativas para a saúde das pessoas mais velhas, que muitas vezes veem as suas opiniões, convicções e vontades condicionadas em função do estigma associado à idade, tornando-os propensos a depressão e isolamento social.

Mais uma vez, a história repete-se.

Embora esta discriminação afete tanto homens quanto mulheres, é importante destacar que as mulheres, especialmente as mais velhas, muitas vezes enfrentam desafios e questões como: “Os cabelos brancos deixam-te mais velha!”, “Vais usar esta roupa? Não é para a tua idade…”, “…como assim vais divorciar-te com esta idade?”,”…já pensaste em fazer um rejuvenescimento facial? As rugas ficam-te mal”.

Esses padrões de beleza estereotipados, reforçados pela publicidade e indústria da moda, criam uma pressão constante para que as mulheres se encaixem em determinados corpos, rostos e aparências. Esta pressão afeta negativamente a autoestima, a saúde mental, onde comentários associados à beleza e idade de mulher, agravam-se ainda mais.

Importa deixar claro que, não é expectável que todas nós possamos assumir os nossos cabelos brancos. Assim como também não penalizamos quem os oculta. Simplesmente devemos ser livres de comentários negativos e depreciativos se assim o desejarmos ser. Se pretendermos pintar o cabelo, está tudo bem, da mesma forma que podemos aceitar sem julgamento as nossas rugas.

Ao longo da nossa história, até aos dias de hoje, pretendemos continuar a romper com os padrões impostos pela sociedade e celebrar a diversidade e a individualidade de cada pessoa.

É fundamental garantir que as mulheres mais velhas tenham voz e espaço na política, na cultura, nas artes, no desporto ou na moda, onde as experiências sejam reconhecidas, sem que a idade e o género sejam considerados um problema.

Ao combater o idadismo, assumimos um papel de agentes para a diversidade e igualdade geracional.

Tornamo-nos embaixadores(as) da liberdade e autenticidade. A idade chega a todos, sim. E está tudo bem com isso.

NOTA: ARTIGO ORIGINALMENTE PUBLICADO NA UMAR AÇORES 

Alexandra Menezes 

-Psicomotricista da Casa do Povo de Santa Bárbara da Ilha Terceira

-Ativista da Associação STOP IDADISMO

 

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