Desde há umas semanas temos assistido a uma nova tendência nas redes sociais das Estruturas Residências para a pessoa idosa, ia escrever, em Portugal, mas, as primeiras publicações que vi eram estrangeiras.
Haver ” trends” nas redes sociais de ERPI, já me parece altamente questionável, destas, então….
Se ainda não viram, passo a descrever:
Vemos pessoas mais velhas, residentes em lar, com um cartaz em frente ao peito onde se lê: ” Eu já fui” depois o cartão é virado ou substituido e nele está escrita a profissão que a pessoa teve ao longo da vida ( “Eu já fui médico, eu já fui agricultora….”)
O título que escolhi para este artigo demonstra claramente, o que sinto quando vejo estas publicações : Vazio. O mesmo vazio que me transmitem os olhos daquelas pessoas que mostram cartazes com o que foram, pelos vistos já não são e o que são, hoje? O vazio no olhar é o sintoma da alienação em que se encontram:
Alguém lhes pede para serem filmados a mostrar um cartaz que diz “o que já fui” …e depois a sua antiga profissão…Tenho quase a certeza de que, em muitos casos, o profissional que entra nesta moda pouco sabe sobre a história profissional daquela pessoa. E mesmo quando sabe, conhecer uma profissão não é conhecer uma história de vida. Quem era aquela pessoa no seu trabalho? O que significava para ela? Que relações construiu? De que se orgulhava? Do que não gostava? O que dessa identidade continua presente hoje?
Quantas daquelas pessoas sabem o que é o facebook? Que implicações têm? Quem vai ver? Comentar? etc?
Já perdi a conta às vezes que me disseram que os familiares deram autorização para a pessoa aparecer….Mas a autorização de um familiar ( mesmo quando é o seu representante legal) não transforma automaticamente exposição em participação informada, nem responde à pergunta fundamental: esta pessoa compreende o que está a acontecer e quer que isto aconteça?
E assim o vazio instala-se e expande-se, as salas ficam cada vez mais silenciosas, as pessoas cada vez mais alienadas…
Claro que há sempre quem diga:” Mas eles gostam…”:
- Quem são os eles?
- O que ganham “eles” com estas campanhas?
- Que impacto tem na vida “deles”?
Em geral, todas estas perguntas ficam sem resposta.
Mas faço mais uma:
Estas iniciativas são para quem? Quando alguém propõe algo deste género a uma pessoa mais velha que vive num lar, que objetivos tem? De que forma é que estas “atividades” se enquadram no plano individual?
No meio do entusiasmo de seguir uma tendência….alguém se pergunta do impacto negativo que esta pode ter na pessoa que “participa”?
Alguém reflete sobre o impacto que a frase : ” Eu já fui” pode ter numa pessoa que vive num contexto como o das ERPI? Esta frase, solta, não poderá reforçar o sentimento de inutilidade que tantas pessoas mais velhas sentem, sobretudo, quando vão viver para uma instituição? Eu já fui …e agora? Sou o quê?
Uma iniciativa destas é idadista em relação às pessoa mais velhas, não acrescenta nada às suas vidas, a não ser sofrimento e ainda mais despersonalização, porque, mostrar num cartaz o que as pessoas “foram”, não é valorizar, reconhecer ou até conhecer as suas histórias, é apenas dizer que elas “foram” alguma coisa que já não são. Que serviram para algo e que já não servem, que tiveram um passado, mas que já não têm um presente e, muito menos, um futuro.
E, se em vez de perguntarmos às pessoas o que “já foram”, começassemos a querer, mesmo, saber quem são, hoje. Atenção, não para seguir uma tendência, mas sim para sermos verdadeiros parceiros de cuidados. Saber o que desejam, o que lhes interessa, o que ainda querem fazer, decidir, experimentar, recusar, ensinar ou simplesmente viver. Saber quem são, hoje.
Porque uma pessoa não é uma profissão da qual se reformou.
Uma pessoa continua a ser.
Terapeuta Ocupacional e CEO Humanamente,lda|Formadora|Empreendedora CEO da @Demwell


