NOTA PÚBLICA
O envelhecimento não é para combater, o idadismo sim.
A Associação Stop Idadismo manifesta a sua preocupação com a utilização da expressão «apoios insuficientes para combater envelhecimento», exibida pela RTP no programa Notícias às 10, numa peça dedicada à insuficiência das respostas e apoios dirigidos às pessoas mais velhas.
Reconhecemos a importância de a comunicação social dar visibilidade às dificuldades enfrentadas pelas pessoas mais velhas e à necessidade de reforçar as respostas sociais. É precisamente por reconhecermos esse papel fundamental que consideramos importante chamar a atenção para a linguagem utilizada.
O envelhecimento não é uma doença, não é uma ameaça nem é um problema que deva ser combatido.
Envelhecer é um processo inerente à vida humana. Aquilo que uma sociedade deve combater são as doenças evitáveis, a pobreza, a solidão indesejada, a exclusão social, a falta de acesso a cuidados e serviços adequados, a perda evitável de autonomia, as desigualdades e todas as formas de discriminação como o idadismo.
Apresentar o envelhecimento como algo que é necessário “combater”, ainda que de forma não intencional, contribui para uma narrativa que associa a idade e a velhice ao declínio, ao problema e ao peso social.
As palavras não são neutras.
A forma como falamos sobre envelhecimento influencia a maneira como pensamos sobre as pessoas mais velhas e, consequentemente, a forma como construímos políticas públicas, serviços, relações sociais e representações coletivas da idade.
Também a expressão “apoios idosos”, utilizada no mesmo grafismo, merece reflexão. As pessoas não são a sua idade. Expressões como «apoios às pessoas idosas» ou «apoios às pessoas mais velhas» colocam a pessoa antes da característica etária e contribuem para uma comunicação mais respeitadora e inclusiva.
A Associação Stop Idadismo não atribui à RTP qualquer intenção discriminatória. Pelo contrário, entendemos este episódio como uma oportunidade para promover uma reflexão mais ampla sobre a responsabilidade da comunicação social na prevenção e no combate ao idadismo.
Os meios de comunicação têm um enorme poder na construção das representações sociais do envelhecimento. Podem perpetuar estereótipos, mesmo involuntariamente, mas podem também ser agentes fundamentais de mudança.
Por isso, deixamos um desafio à RTP e a todos os órgãos de comunicação social: que integrem cada vez mais uma perspetiva consciente do idadismo nas escolhas editoriais, na linguagem, nas imagens e nas narrativas utilizadas quando se fala de idade e envelhecimento.
Portugal é um dos países mais envelhecidos do mundo. Precisamos de discutir seriamente como queremos viver mais anos, como promovemos saúde e autonomia ao longo da vida e como construímos respostas sociais adequadas a uma sociedade de maior longevidade.
Não devemos perguntar como podemos combater o envelhecimento.
Devemos perguntar como podemos construir uma sociedade onde todas as pessoas possam envelhecer com direitos, saúde, autonomia, participação e dignidade.
Associação Stop Idadismo
#PortugalParaTodasAsIdades | #AWorld4AllAges

