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“Eu já sou passado, já era!” — Rita Blanco e a idade que ainda decide quem tem lugar

As palavras da atriz Rita Blanco na Grande Entrevista colocam uma questão que ultrapassa o mundo da representação:

– porque é que, com a idade, continuar a trabalhar pode começar a ser vivido como uma oportunidade pela qual se deve estar grato?

“Eu já sou passado, já era!”

A afirmação é de Rita Blanco e foi feita na Grande Entrevista, da RTP, numa conversa em que participou também o realizador Rúben Alves.

A atriz acrescenta uma frase aparentemente simples, mas particularmente reveladora:

“Fico muito feliz quando ainda sou convidada para fazer e tenho alguns jovens com quem gostava de trabalhar.”

Há uma palavra que merece que nos detenhamos nela: “ainda”.

Porque é que, com a idade, continuar a trabalhar pode começar a ser vivido como uma oportunidade pela qual se deve estar grato?

A pergunta não diz respeito apenas a Rita Blanco, nem apenas a atores e atrizes, diz respeito à forma como continuamos a organizar socialmente as idades e a atribuir-lhes expectativas, capacidades e lugares diferentes.

Quando a experiência começa a valer menos

Ao longo da vida profissional, acumulamos conhecimento, experiência, relações, competências e capacidade de interpretar situações complexas. Seria, por isso, razoável esperar que esse património continuasse a ser reconhecido.

Mas nem sempre acontece.

Em muitos contextos profissionais, a passagem do tempo pode significar uma progressiva redução das oportunidades. A pessoa deixa de ser vista prioritariamente pelo que sabe, pelo que faz ou pelo que ainda pode fazer e começa a ser observada através da sua idade.

É aqui que encontramos uma das manifestações do idadismo.

Nem sempre assume a forma de uma exclusão explícita. Pode estar presente na ideia de que alguém já “deu o que tinha a dar”, de que chegou o momento de “dar lugar aos mais novos”, de que inovação pertence à juventude ou de que experiência é sinónimo de menor capacidade de adaptação.

A juventude e a experiência não são adversárias.

Uma sociedade para todas as idades não substitui umas gerações por outras, cria espaço para que possam participar, trabalhar e criar em conjunto.

“Nas novelas, a questão da idade nota-se imenso”

Rita Blanco vai mais longe na entrevista:

“Nas novelas, a questão da idade nota-se imenso. É muito óbvio que as atrizes são, cada vez mais, jovens.”

A afirmação introduz outra dimensão essencial:

o idadismo também tem género.

Envelhecer não produz necessariamente as mesmas consequências sociais e profissionais para mulheres e homens.

No audiovisual, como em muitas outras áreas da sociedade, importa questionar quem continua a ser representado, quem mantém papéis de protagonismo, que histórias contamos sobre mulheres de diferentes idades e até que ponto juventude, aparência e valor feminino continuam indevidamente associados.

Não se trata de retirar espaço às mulheres mais jovens.

Trata-se precisamente do contrário: recusar uma sociedade que coloca gerações em competição e defender que existem espaço, voz e protagonismo para mulheres de todas as idades.

Quando o humor revela uma realidade séria

Rita Blanco recorre depois ao humor:

“Eu já fiz de mãe do Albano Jerónimo e da Cláudia Vieira. Já estou rés-vés Campo de Ourique para ser descartada.”

Podemos sorrir perante a formulação, mas não devemos ignorar a força da palavra escolhida: “descartada”.

As pessoas não são descartáveis!

A experiência não é descartável!

O talento não tem prazo de validade!

Cumprir anos não pode significar tornar-se progressivamente invisível.

Há ainda outra questão que estas declarações nos obrigam a considerar:

o idadismo interiorizado.

Quando durante anos uma sociedade transmite mensagens sobre aquilo que uma pessoa já não deve fazer, desejar ou esperar a partir de determinada idade, essas ideias podem acabar por ser incorporadas pelas próprias pessoas.

O “já sou passado” merece, por isso, ser ouvido também como um alerta coletivo.

Quantas vezes somos nós próprios a antecipar uma exclusão porque aprendemos que determinada idade significa necessariamente recuo, perda ou retirada?

Não queremos uma sociedade sem idade!

Combater o idadismo não significa negar a idade nem defender uma juventude eterna, significa exatamente o contrário.

Significa reconhecer a idade como parte da diversidade humana, sem a transformar automaticamente num indicador de competência, capacidade, produtividade, criatividade ou valor.

Na Associação Stop Idadismo, defendemos uma sociedade onde ninguém tenha de agradecer por continuar a ter lugar simplesmente porque envelheceu. Uma sociedade onde uma atriz não seja considerada “passado” por causa da sua idade. Onde uma trabalhadora ou um trabalhador não veja as oportunidades desaparecerem porque cumpriu 50, 60 ou mais anos. Onde ser mais novo também não signifique ser automaticamente considerado inexperiente ou incapaz.

Sim, o idadismo pode atingir pessoas em diferentes momentos da vida.

As pessoas não têm prazo de validade, o talento, a experiência, a criatividade e a vontade de contribuir também não.

Precisamos de construir um Portugal para todas as idades.

 

 

#StopIdadismo #PortugalParaTodasAsIdades #AWorld4AllAges

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