Uma petição pretendia proibir os maiores de 75 anos de conduzirem. E que tal uma a proibir os que têm menos de dois anos de carta?
Há muitos anos, entre 40 e 50, os novos ‘encartados’ ostentavam na traseira do seu carro aquilo que ficou conhecido como ovo estrelado, onde sob um fundo amarelo aparecia o 90, a preto, precisamente a velocidade a que podiam conduzir, devido à falta de experiência. Calculo que alguém terá chegado à conclusão que tal ‘distinção’ seria prejudicial para o recém-condutor, pois os outros culpavam-no de tudo e mais alguma coisa que se passava na estrada.
Como os portugueses adoram praxes, coisa que sempre abominei, os velhos condutores faziam aos novos o que lhes tinham feito a si. Vem esta conversa a propósito de uma ideia estrambólica e desumana que circulou nas redes sociais, onde um personagem criou uma petição para tentar impedir quem tem mais de 75 anos de conduzir. Penso que para o autor de tão brilhante ideia, tudo seria automático. Quando alguém estivesse a apagar as 75 velas, podia dizer logo adeus à carta de condução.
Mas vou um pouco mais longe. Acho que é verdadeiramente desumano ‘acabar’ com a vida profissional das pessoas dessa forma. Uma coisa é quem pretenda ir descansar e aproveitar a vida com os netos, com as mulheres ou maridos, com as amantes ou amantes, o que lhe aprouver. Outra, completamente diferente, é decretar uma fatwa sobre as pessoas só porque têm mais um dia do que na véspera. Já entrevistei algumas que foram obrigadas a dar a volta ao texto – calculo que um cirurgião não queira operar com a mesma intensidade depois dessas data, mas eu preferia ficar nas mãos de um septuagenário do que de um imberbe, com todo o respeito por todos –, tentando adaptar-se à nova realidade. Vejo discutir-se pouco esta questão, numa altura em que a população portuguesa envelhece cada vez mais e esse ‘fim’ manda para o psiquiatra milhares de pessoas. Só para se ter uma ideia, já há mais de três mil cidadãos com mais de 100 anos.
É óbvio que qualquer condutor a partir dos 60 anos deve ser sujeito a testes médicos para renovar a carta, para ver se os seus reflexos se mantêm ‘operacionais’, se a sua visão ainda está limpa e por aí fora. Calculo que o autor da petição deve ter feito um estudo sobre os acidentes e terá chegado à conclusão que aqueles que têm menos de dois anos de experiência são uns ases do volante. O que, como é óbvio, não é verdade. Muitos dos acidentes envolvem jovens condutores e estou em crer, pelo menos era assim, que os acidentes de viação são uma das principais causas de morte entre determinadas idades – não será seguramente nos ‘maiores’ de 70. Independentemente de tudo, todos os condutores terão de estar aptos para conduzir, tenham a idade que tenham.
Acrescente-se ainda que vários amigos, e médicos, me relataram a ‘desistência’ de viver de alguns parentes quando deixaram de conduzir, principalmente em meios pequenos. Pessoas com 90 e mais anos faziam a sua vida, de sua casa iam à dos filhos ou ao café, começando a definhar rapidamente a partir do momento em que ficaram sem a possibilidade de conduzir. Para que não fiquem dúvidas, é óbvio que tem de haver uma renovação nas diferentes profissões, mas essa substituição será sempre muito melhor com a colaboração de todos. Ou alguém imagina uma equipa só com miúdos ganhar um campeonato do mundo?
Telegramas
O regresso à Idade Média
Penso que sou insuspeito na matéria, mas a petição que circula para legalizar terapias de conversão de identidade de género leva-nos à Idade Média. Deixem as pessoas serem o que quiserem. Os extremismos tocam-se nesta, como em muitas outras matérias, e há cada vez menos tolerância. Os ditadores espreitam em cada esquina. Sejam de esquerda ou de direita.
FONTE: SEMANÁRIO SOL


