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Idadismo no Mercado de Trabalho

E que tal aproveitar a mais-valia de ter trabalhadores de todas as idades?
O Professor Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional de Longevidade Brasil é o grande inspirador do Movimento Stop Idadismo, lançado em simultâneo em mais de uma dezena de países ibero-americanos, há dois anos. Precisamente a 30 de abril. Um Movimento em cujo lançamento tive oportunidade de participar, a convite do líder em Portugal, o Dr. José Carreira.
Numa sociedade que envelhece rapidamente como a europeia e em particular, a portuguesa, não olhar para os desafios que o envelhecimento levanta e continuar a ignorar o idadismo (discriminação em função da idade, sejam mais novos ou mais velhos, embora estes últimos sejam os mais atingidos) é meter a cabeça na areia.
A discriminação é cada vez mais acentuada a diversos níveis, nomeadamente no mercado de trabalho. Mesmo quando os próprios atingidos não a sentem imediatamente. Porque é discreta e por vezes, até distinguir e porque grande parte da população não sabe o que é o idadismo e não dá conta que, por vezes mesmo sem querer, é idadista. Ou que, por outro lado, foi alvo de atitudes ou ações discriminatórias por causa da sua idade. É preciso apostar na formação e na educação. E como a palavra “idadismo” passou a constar da nova edição do Dicionário da Língua Portuguesa, tenhamos esperança!
Voltando ao mercado de trabalho, num inquérito europeu recente envolvendo quase 5.000 trabalhadores acima dos 50 anos, mais de 40% revelaram que já se sentiram ou foram discriminados por causa da idade. Em Portugal, quase dois terços dos entrevistados não se sentiram discriminados; apenas 3,5% afirmaram sentir essa discriminação de forma permanente. Uma diferença tão grande em relação ao resto da Europa prende-se com a realidade ou com a falta de informação sobre o conceito?
Para ajudar a identificar (e combater) o preconceito, a Feira de Empregabilidade do Interior, organizada pelas Obras Sociais de Viseu nos dias 4 e 5 de maio em Viseu inclui uma Tertúlia sobre o Idadismo no Mercado de Trabalho.
Há cada vez mais empresas a dispensar trabalhadores seniores. Supostamente têm menos energia, produzem menos e têm maior dificuldade em acompanhar o desenvolvimento tecnológico que os mais novos tratam por tu. E com uma carreira construída ao longo de dezenas de anos, normalmente, ganham mais. Mas, ao “descartar” os trabalhadores mais velhos (com mais de 50 anos), de alguma forma, as empresas descartam também parte da sua responsabilidade social e da sua riqueza.
A esperança de vida é cada vez mais elevada e por isso, temos de trabalhar até mais tarde e continuar a contribuir para a Segurança Social para ter acesso a uma pensão completa (e garantindo a sustentabilidade do Sistema).
Ora, um desempregado com mais de 50 anos (mesmo qualificado) tem menos hipóteses de voltar ao mercado de trabalho. Tem direito ao Subsídio de Desemprego (no máximo, cerca de três anos), um montante que é sempre inferior ao rendimento que auferia com o trabalho. Se, entretanto, não conseguir um novo emprego poderá ser obrigado a requerer a reforma antecipada, obviamente com um corte considerável na pensão, relativamente ao que seriam as suas expetativas face a uma carreira contributiva completa. Como sabemos, as pensões já são, em geral, baixas; quanto mais se resultarem da antecipação da idade da reforma. Ou seja, favorece-se o empobrecimento dos futuros pensionistas.
Sem falar na frustração de alguém que se sente perfeitamente válido e em condições de continuar a contribuir para a riqueza do país com o seu trabalho se ver substituído por trabalhadores mais novos – os tais jovens talentos que é preciso captar e reter – quantas vezes precários e mal pagos.
Não se trata de uma luta entre gerações. Qualquer organização precisa da energia e do “sangue na guelra” dos mais novos, assim como dos seus conhecimentos mais recentes, nomeadamente na área das Tecnologias. Mas também precisa da maturidade e do know-how das gerações seguintes; da experiência, bom-senso e lucidez dos mais velhos.
Todos podem e devem aprender uns com os outros, em benefício comum, da organização/empresa e da sociedade. O futuro não se constrói ignorando o passado, mesmo que este tenha tido alguns pontos negros. Também se aprende com o fracasso para chegar ao sucesso.
A memória é um bem a preservar. E a vontade que os mais velhos têm de continuar a aprender, a trabalhar, a produzir, também.
Os nossos vizinhos espanhóis já estão a caminho de criar o Dia do Trabalhador Senior (com mais de 50 anos), a assinalar exatamente a 30 de abril. Na véspera de 1 de maio – Dia do Trabalhador. Porque os seniores chegaram antes. Em Portugal também temos de iniciar esse percurso.
30 de abril. Não há coincidências. É um sinal. Vamos construir uma sociedade para todas as idades e para os trabalhadores de todas as idades.
Jornalista há mais de três décadas.
As causas dos cuidadores informais e os desafios do Envelhecimento – em que se inclui o combate ao Idadismo – foram temas tratados com regularidade nos últimos anos.
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